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Juliano Jota | Psicólogo

1. Introdução: O Ciclo Invisível da Repetição

Em minha prática como coach executivo, frequentemente recebo líderes que se sentem presos em um labirinto circular. Eles mudam de empresa, trocam de diretoria ou reestruturam suas equipes, mas, após algum tempo, encontram-se exatamente no mesmo lugar, enfrentando os mesmos conflitos e desgastes. É a “dinâmica da espiral”: você faz acordos, organiza processos, promete mudanças e, às vezes apenas 48 horas depois de um pacto sincero, o padrão se repete.

Essa repetição ocorre porque somos, em grande medida, cegos para nossas próprias dinâmicas. Enxergamos com nitidez cirúrgica a falha do outro — o “chefe tóxico” ou o “subordinado difícil” — mas permanecemos alheios à nossa contribuição para o ciclo. Entender as raízes emocionais dessas repetições não é um exercício de introspecção passiva; é a estratégia de sobrevivência profissional mais sofisticada que um executivo pode adotar. Sem olhar para o espelho, o profissional está condenado a repetir o passado, acreditando que está caminhando em direção à luz, quando, na verdade, está apenas fugindo da escuridão de suas feridas.

2. A Anatomia das Feridas: Filtros que Distorcem a Realidade Profissional

No ambiente corporativo, raramente reagimos à realidade nua e crua. Operamos através de “filtros” construídos por nossas aprendizagens de infância. Essas feridas são conclusões precoces sobre o que é grave, terrível ou insuportável na vida. Elas determinam o que interpretamos como uma ameaça catastrófica no dia a dia do escritório.

Existem quatro sensibilidades principais que distorcem a visão do executivo:

  • Insuficiência: O medo visceral de não dar a conta ou de sentir que “faltam 20 centavos para completar um dólar”.
  • Desamor: A percepção de que você não tem valor pessoal ou de que não é importante para o grupo ou para o líder.
  • Rejeição: O pavor extremo da desaprovação ou da exclusão, que muitas vezes gera uma busca desesperada por aprovação.
  • Desprezo: A sensibilidade aguda à subestimação. Para o alto-perfil, ser subestimado é um gatilho de estresse paralisante.

Quando uma ferida é tocada, um evento neutro é processado como uma agressão. Veja como essa distorção opera no monólogo interno do profissional:

Evento Real (O que acontece)Interpretação da Ferida (O monólogo interno)
Um colega trabalha em um ritmo mais lento que o seu.“Ele é um inepto que vai arruinar meus resultados e provar que eu sou um fracasso.”
O gestor sugere um ajuste em um relatório técnico.“Ele está me humilhando publicamente; ele não vê o esforço monumental que eu faço.”
Alguém discorda da sua estratégia em uma reunião.“Estou sendo rejeitado pelo grupo; minhas ideias não têm valor aqui.”
Um líder utiliza um tom de voz firme e incisivo.“Ele é um desqualificador atrevido que está tentando me subjugar e me apagar.”

Para escapar da dor dessas interpretações, desenvolvemos “estratégias de sobrevivência” que, paradoxalmente, criam os mesmos problemas que tentamos evitar.

3. O Efeito María Paula: O Custo Invisível da “Mulher Maravilha”

María Paula é o arquétipo do sucesso corporativo: gerente respeitada, mãe presente, atleta fit que treina às 4h da manhã. No entanto, sua alta performance não nasce de um propósito, mas de uma fuga desesperada da ferida da insuficiência. Para ela, errar é o pior cenário do universo.

Essa dinâmica gera um mecanismo de sobreesforço e microgerenciamento obsessivo. O paradoxo é cruel: para garantir que nada falhe, María Paula dorme menos de 5 horas por noite. A ciência e a prática clínica mostram que dormir menos de 5 horas faz com que o cérebro retenha 10 vezes menos informação, o que exige 10 vezes mais reprocessamento mental cognitivo. O resultado? Ela começa a esquecer detalhes e cometer erros justamente porque está se esforçando demais para não errar.

O corpo paga a conta dessa “estratégia de controle”. As defesas psicológicas manifestam-se em sintomas físicos viscerais (somatização):

  • Bruxismo: Desgaste do esmalte dentário e dor intensa nos músculos masseteres por tensão constante;
  • Inflamação do cólon: Aquele estado em que, logo após o café da manhã, o executivo parece estar com oito meses de gravidez devido ao estresse;
  • Contraturas musculares: Uma “armadura” de dor nas costas e ombros que impede o relaxamento.

4. Loops Interpessoais: Quando Minha Defesa Vira o Seu Estressor

Nossas estratégias de proteção não terminam em nós; elas invadem o espaço do outro e ativam suas feridas. É o que chamo de “dinâmica do dedo na ferida”.

Considere o caso de Pablo, que possui a ferida da Rejeição. Sua estratégia é a timidez e a frieza pública; ele evita se expor para não ser julgado. No entanto, essa frieza é interpretada por sua equipe (ou parceira) como indiferença. Se o outro tiver a ferida do Desamor, a estratégia de defesa de Pablo torna-se o gatilho de dor do outro.

Outro exemplo clássico é o excesso de amabilidade. Alguns profissionais são tão aterrorizados pela desaprovação que tentam “adoçar” todos ao redor. O resultado é o que chamo de diabetes existencial: você sufoca o outro com tanta gentileza inautêntica que ele acaba se afastando, gerando exatamente a rejeição que você tentava evitar.

O ciclo vicioso é claro:

  1. Minha Estratégia: Eu controlo tudo para não parecer insuficiente.
  2. Seu Estressor: Meu controle faz você se sentir subestimado (ativa sua ferida).
  3. Sua Reação: Você reage com lentidão ou resistência passiva para lidar com o estresse.
  4. Meu Novo Estressor: Sua lentidão confirma meu medo de fracasso, e eu dobro o controle.

5. A “Coincidência Suspeita”: Por que o Fator Comum é Você?

No consultório, ouço frequentemente: “Tive seis chefes terríveis seguidos” ou “Minhas últimas quatro parcerias foram tóxicas”. Como coach, meu papel é ser provocador: a estatística não permite tanta coincidência. Se o cenário muda, mas o sofrimento é o mesmo, o fator comum é você.

Precisamos desmontar a vitimização corporativa. É necessário questionar se você não está, inconscientemente, movendo peças no comportamento do seu líder ou parceiro que os levam a reagir daquela forma. A responsabilidade pelo seu sucesso profissional começa no momento em que você para de olhar para fora e começa a mapear suas próprias sombras.

Box de Reflexão: O Mapa da Autorresponsabilidade

  • Será que as críticas me fazem sentir insuficiente por algo real ou por um padrão de infância que eu ainda não processei?
  • Meu excesso de amabilidade é autenticidade ou uma estratégia de “adoçamento” para evitar o abandono?
  • Pergunta de Ouro: É possível que eu esteja inconscientemente provocando no meu chefe/parceiro as reações que eu mais critico neles?
  • Se eu mudar de empresa hoje, o que eu levaria na bagagem emocional que faria o problema renascer em seis meses?

6. Conclusão: Do Labirinto para o Caminho da Consciência

A transformação profissional definitiva não vem de “morder a língua” ou de promessas superficiais de mudança. Ela nasce da construção de um Mapa de Feridas, Ameaças e Estratégias.

Somente ao ganhar consciência dessa dinâmica invisível é que podemos interromper as profecias autorrealizáveis. María Paula só deixará de errar quando parar de se punir com a exaustão; Pablo só será um líder conectado quando entender que sua proteção é vista como desdém. Mapear esses gatilhos é o que permite visualizar novas rotas e, finalmente, desbloquear a carreira.

O autoconhecimento profundo não é um luxo opcional; é a ferramenta definitiva de gestão de carreira para quem deseja governar seus resultados em vez de ser governado por traumas do passado.

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